vagabundo

“Eu quero ser vagabundo!” – por Victor Loyola.

´Eu quero ser vagabundo!´Do alto dos seus cinco anos, o menino já era capaz de fazer algumas analogias. Estava naquela época da vida riquíssima em histórias graciosas, que se protagonizadas somente por adultos seriam geradoras de constrangimento, mas que levadas a cabo por crianças traziam além da surpresa, um processo de desopilação mental para os participantes, com vibrantes gargalhadas.

Buscando o reconhecimento de sua existência, principalmente nas ocasiões sociais, aquele serzinho invadiu a sala de jantar, onde seus pais reuniam-se animadamente com amigos e afirmou com certeza infantil, imediatamente atraindo todos os olhares para si:

´Pai, eu já sei o que eu quero ser quando crescer!!! ´

Trata-se de um dos mais antigos puxadores de assunto com criança da história da humanidade. Eu mesmo lembro-me de ter respondido essa pergunta centenas de vezes durante minha longínqua infância. Jogador de futebol, bombeiro e polícia talvez sejam os desejos mais comuns nessa fase, e era isso que seu pai e convidados esperavam ouvir.

´O quê? ´, replicou quase instantaneamente toda audiência, a essa altura satisfazendo o desejo do menino em ser o centro da atenções.

´Eu quero ser vagabundo!´

Aparentemente, a resposta não fez o sucesso que o menino esperava, isso ele notou pelo sorriso amarelo do seu pai, no fundo da mesa, que um tanto sem ação e levemente envergonhado,  tentou corrigir:

‘ Filho, ser vagabundo não é legal, é algo ruim!’

‘Por que, pai? É perigoso?’

A réplica veio fulminante. Agora a conversa escapava de seu controle, enveredando por caminhos incertos. Intimamente ele desejava que alguém tivesse alguma boa ideia e intercedesse, mas a essa altura não podia refugar. Afinal, era o pai. Tinha que vencer o debate que se estabelecia naquele momento. O adversário era imprevisível, e tinha a admiração da audiência.

‘Não é perigoso, mas o vagabundo é um inútil!’

‘O que é inútil, pai?’

Havia se esquecido que o debatedor mirim possuía um vocabulário limitado, sua réplica fora tão inútil quanto o vagabundo a quem ele se referiu.

‘Inútil é a pessoa que não faz nada!’

‘Mas os vagabundos estão sempre na televisão, com roupa de trabalho. Ontem apareceu um com helicóptero!’

Mais uma vez surpreendido, o pai começava a sentir que o filho ganhava a peleja por pontos. Sem tempo, ele deu mais corda para o menino, quem sabe assim ele abria o flanco para um xeque-mate: ‘Como assim, filho? ‘

‘Pai, você sempre fala: esse aí é um vagabundo! Eles estão sempre na televisão!’

Agora o pai estava definitivamente nas cordas. Tinha que demovê-lo rapidamente da ideia de ser vagabundo e uma mera imposição não seria adequada, passaria a imagem de um déspota para a pequena platéia. Irritou-se um pouco com o silêncio de sua mulher, que estava achando a contenda engraçada e não vinha em sua ajuda.  Felizmente, seus amigos também tinham filhos pequenos em casa, esses debatedores mordazes…

‘Filho, ladrão também aparece na televisão. Estar na televisão às vezes não é legal. Melhor você pensar em outra coisa para ser quando crescer’. Já não desejava vencer por nocaute, um empate técnico bastava.

Após um breve silêncio, que passou a impressão enganosa de que seu interlocutor cansara, veio outra intervenção, potente como um murro no estômago: ‘Então vou ser corrupto e ter um avião!’

A essa altura, a audiência gargalhava. O pai sentia que perderia o embate. Encerrar com um ‘está bem, agora vai para o quarto’ seria o reconhecimento da vergonhosa derrota. Não iria fazer isso; tinha que pensar, e rápido, em uma nova réplica.

‘Filho, corruptos vão para a cadeia, por que eles roubam das pessoas. Você não quer ficar preso quando crescer, quer? É como se fosse um castigo de alguns anos, sem parar!’

Reação extraordinária. Ele havia ressurgido das cinzas e aplicado um argumento possivelmente sem resposta para o menino. De quase nocauteado para a vitória! Agora era esperar mais alguns segundo e aplicar o ‘está na hora de dormir…’, seria aceitável dessa maneira.

‘Pai, ontem você falou que corruptos nunca vão para a cadeia!’

O menino era um debatedor incansável, daria um bom advogado. Ele pensou em dizer isso, mas daí teria que explicar o que era um advogado, e o jantar estava esfriando. Resolveu encerrar a questão, aceitaria a derrota por pontos.

‘Filho, ser vagabundo ou corrupto não é legal. Vagabundos não fazem nada e corruptos roubam das pessoas, como ladrões. Eles agora vão para cadeia. Por que você não pensa em ser jogador de futebol, você está jogando muito bem lá na escolinha!’

‘ Mas pai, hoje você chamou vários jogadores de vagabundos no jogo que passou na televisão à tarde!’

Nocaute. A plateia contorcia-se de tanto rir, o menino extasiado por atingir o seu objetivo em chamar a atenção. O pai, solitário na derrota, valeu-se do último envelope, aquele utilizado quando cessam todas as demais alternativas:

‘Está bem filho, depois você escolhe outra profissão. Agora vá dormir, já é hora de criança estar na cama!’

Vitorioso, o menino despediu-se de todos. Voltava para o seu quarto como almejava, repleto de elogios e gracejos.

O pai, aliviado, voltou sua atenção para o jantar. Era mais fácil discutir com adultos.